TOP 8: livros de 2016

Olá, querido leitor!

Como este é o primeiro post do blog do LITERARY HURRICANE — não só do ano de 2017, mas da vida — achamos por bem nos apresentarmos.

O LITERARY HURRICANE (também conhecido como LH) é um um clube do livro brasileiro para pessoas de gostos variados que gostam de sair de sua zona de conforto. Nosso grupo está no ar desde julho de 2014 e começou na nossa mídia social para leitores favorita, o Goodreads, onde ainda temos a maior parte de nossas conversas e debates. Mas somos um grupo muito ativo também no Facebook, já que o Goodreads não é assim tão conhecido no Brasil. De uma forma ou de outra, todo mês, os nossos 164 membros (até o dia de hoje) têm a oportunidade de indicar um livro, votar nos livros indicados e compartilhar suas opiniões e emoções dentro de uma comunidade que acolhe e entende o leitor. Eu sou muito suspeita para falar, mas, francamente, é o máximo.

Este blog é, portanto, uma extensão desse espaço que amamos tanto. Somos 8 colaboradores no momento e, para que pudéssemos nos apresentar melhor, resolvemos fazer o nosso primeiro post dizendo o que cada um mais gostou de ler em 2016. Estes não são livros necessariamente publicados em 2016, e sim livros que, por um acaso, lemos no ano passado. Como verá, é uma lista super variada, cheia de diversidade — assim como os nossos membros e os livros que lemos no clube. Sem mais delongas, a lista:


Coração? — Gail Carrigergail-carriger-coracao
Livro 4 da série O Protetorado da Sombrinha
por Bárbara Marques

Em O Protetorado da Sombrinha, acompanhamos a trajetória de Alexia Tarabotti, uma dama da Inglaterra Vitoriana que está sempre envolvida em algum problema por conta de sua condição de preternatural. Entre vampiros e lobisomens, a Lady Tarabotti precisa encontrar tempo para chás com os amigos e estudos científicos envolvendo anatomia e aparatos mecânicos. É isso aí: nesta série de Gail Carriger, temos a combinação de seres sobrenaturais e tecnologia steampunk, que, mesmo soando um pouco incomum, consegue se desenvolver com bom humor natural e uma linguagem fluida. Ah, e antes que você continue a se perguntar o que raios é uma pessoa preternatural, vou resumir brevemente um pouco da natureza das criaturas criadas por Gail Carriger: de acordo com a autora, a quantidade de alma existente em um ser vivo pode determinar seu nível de proximidade com o mundo sobrenatural. Pessoas com “muita alma” geralmente são mais criativas e voltadas ao mundo das artes, além de fortes candidatas a passarem sem muitos transtornos pelas transformações em lobisomens ou vampiros (caso morra por alguma outra circunstância, simplesmente virará um fantasma). Já pessoas com uma quantidade “comum” de alma não apresentam nenhum risco para o mundo sobrenatural, nascendo e morrendo de acordo com o que é considerado “normal”. No entanto, existe um raro e ínfimo número de pessoas sem qualquer quantidade de alma, os conhecidos como preternaturais. Estes “espécimes” têm a capacidade de anular a condição sobrenatural de vampiros, lobisomens e fantasmas, tornando-os mortais com um simples toque; o que pode ser interpretado como uma quebra de maldição ou tentativa de assassinato mesmo, porém estes pontos de vista costumam variar de sobrenatural para sobrenatural.

O primeiro livro da série, Alma?, é o lugar por onde você deve começar a ler esta incrível série, mas Coração?, o quarto livro da série, que teve sua tradução lançada no Brasil em 2016 pela editora Valentina, foi a minha escolha. Eu poderia passar um post inteiro dissertando sobre esse livro, pois a série virou uma das minhas favoritas do dia para a noite, mas vou apenas destacar sua importância para o meu 2016. Depois de ter concluído algumas distopias adolescentes, fiquei feliz em poder saltar das protagonistas indecisas em seus triângulos amorosos para a determinada Alexia Tarabotti. Seu mundo cercado de chapéus exóticos e seres imortais envolvidos entre a mais alta camada social da Inglaterra Vitoriana rende personagens únicos e cativantes. A atmosfera de Orgulho e preconceito, misturada com As loucas aventuras de James West mais o curioso final conseguiram me manter atenta e entretida a ponto de torcer para que 2017 traga logo a tradução do próximo livro da saga.


Nu, de botas — Antônio Prata antonio-prata-nu-de-botas
por Carol Poli

Tem livros que caem como uma luva em certos momentos, né? Foi assim comigo e Nu, de Botas, do Antonio Prata, e por isso mesmo ele é a minha escolha para melhor leitura de 2016, porque me deu aquele calorzinho no coração no momento em que eu estava precisando. Estava eu, lá, meio jururu, quando, lindo e despretensioso, esse livro chegou na minha casa e me ajudou a respirar mais leve.

Crônicas parecem fáceis de escrever, mas são daqueles textos capciosos, em que você tem que ter a mão na medida certa, e vou te contar que esse tal de Prata tem para dar e vender. Não teve um só capítulo desse livro que não fosse cheio de humor e inteligência. Eu me senti transportada para décadas atrás, entre parquinhos, sorvetes e bolhas de sabão, porque ler essas páginas e não se lembrar da sua infância é de outro planeta, dada a habilidade do autor. É sempre bom ser criança de novo um pouquinho, especialmente em alguns momentos, e é por isso que esse livro é tão especial.

Cada texto de Prata aborda um episódio de sua infância: como eram as viagens de carro para a casa dos avós, as competições por popularidade de pré-escolar, aquela inabilidade total de lidar com o primeiro crush correspondido, a completa falta de tato que só existe quando você ainda não tem nenhuma maldade, e muito mais. Dou um prêmio para quem ler Mau menino com cara séria até o final (ó, só pra deixar claro, o prêmio é figurativo, tá?). Enfim, Nu, de botas é um desses livros que eu vou levar comigo e que vou ser a chata falando “você já leu esse? Você tem que ler!” para pessoas que não me conhecem na rua. Ou na internet. Você tem que ler, viu?


Confissões do crematório — Caitlin Doughty caitlin-doughty-confissoes-do-crematorio
por Maíra Protasio

Em sua nota da autora, Doughty diz: “Escondemos a morte com tanta habilidade que quase daria para acreditar que somos a primeira geração de imortais. Mas não somos. Vamos todos morrer e sabemos disso.” E é exatamente esse processo ao qual estamos tão acostumados, isto é, escondermos a morte, que ela busca combater com sua obra. Pois, neste livro, a autora busca nos fazer olhar de frente para a morte, em vez de desviar nosso olhar, e para tal ela faz uso da sua experiência de anos como agente funerária. Em capítulos curtos, Confissões do crematório nos conduz por uma série de aspectos que envolvem a morte, indo desde descrições bem visuais do processo de cremação de um corpo até situações tão surreais que se tornam cômicas. Um dos grandes trunfos da autora é justamente o seu humor: Doughty tem aquele humor ácido que tira um pouco do peso do tema sem jamais soar como um desrespeito à dor que acompanha uma perda.

Ao nos fazer encarar a morte de frente, sem vendas nos olhos, Caitlin Doughty nos ajuda a naturalizar o processo da morte. Afinal, se a nossa única certeza é que vamos todos morrer um dia, por que temê-la tanto? Por que não podemos ver o momento da morte, e o modo como vamos lidar com o corpo diante de nós, como um processo natural? Não é uma leitura fácil, principalmente para quem já passou pela dor de ter que lidar com a morte de um ente querido, mas é uma leitura extremamente necessária. Ao concluir esta leitura, a minha sensação foi que, agora, depois de passar por esta experiência transformadora, serei capaz de lidar com a morte daqueles que me cercam de modo mais natural e, principalmente, honesto, sem mais recorrer a vendas, sejam elas físicas ou emocionais.


Jonathan Strange & Mr. Norell — Susanna Clarke susanna-clarke-jonathan-strange-mr-norrell
por Joana Diniz

Esse é um livro que fala sobre magia: no início do século XIX, a magia inglesa é totalmente teórica e ninguém questiona isso… até que alguém resolve questionar numa das intermináveis reuniões da Sociedade de Magia de York. Após ser escorraçado, John Segundus ouve falar de um mago recluso que, segundo os boatos, é um prático da magia. Quando leva essa informação para a Sociedade, todos desdenham do misterioso Mr. Norrell, que desafia-os e prova que a magia inglesa está mais viva que nunca… Mas esse herói não é herói: tem muitas falhas, é orgulhoso e acaba fazendo burrada; burrada essa com a qual muitos anos depois — o livro é enorme porque atravessa vários anos! — seu discípulo talentosíssimo & arrogante & tonto & amável, Jonathan Strange, vai ter que lidar. E que vai mudar pra sempre os rumos da magia no mundo.

Achei esse livro tão maravilhoso de ler porque os temas são muito abrangentes. A Susanna Clarke criou um universo alternativo incrivelmente completo, com lendas, livros de referência fictícios e tudo o mais que aparecem em notas de rodapé super cuidadosas. E vemos o desdobramento de eventos que realmente aconteceram, como as guerras napoleônicas, e até pessoas que realmente existiram, como o Duque de Wellington, em um universo em que magia existe e é extremamente ativa no desenrolar desses fatos. Ela fala de história alternativa, magia, loucura e amizade de um jeito muito cativante e instigante. Além disso, os personagens são extremamente bem escritos e desenvolvidos: não são planos, todos têm personalidades muito completas e reais; mesmo desprezando as atitudes deles, é difícil não se apegar de tão verossímeis que são! Para finalizar, a escrita da autora é deliciosa: me fez pensar em Jane Austen com um toque de Terry Pratchett, sem ser pomposo ou pretensioso. Até agora estou órfã desse livro maravilhoso!


A louca da casa — Rosa Montero rosa-montero-a-louca-da-casa
por André Caniato

A louca da casa é um dos três livros de não-ficção que mudaram a minha vida (a saber, os outros dois são A arte de pedir, da Amanda Palmer, e Sobre a escrita, do Stephen King). Digo “não-ficção”, mas, neste caso, acredito que a classificação mais correta possa ser “ficção autobiográfica” ou o que o valha — ainda que eu não tenha certeza, exatamente, do que é ficção e do que é autobiografia nesse livro.

O efeito sobre mim se assemelhou bastante ao do já mencionado Sobre a escrita, ainda que a abordagem do assunto seja completamente diferente. Enquanto o Stephen King (Estevão Rei, pros latinos íntimos) nos traz uma obra com bases fortes na realidade e, de certa forma, bastante técnica, calcada em opiniões sobre a escrita como ferramenta, profissão e prática, Rosa Montero cria, em A louca da casa, uma narrativa fantasiosa, que pode ou não ser verdade — tenha em vista suas três diferentes versões do encontro com o misterioso M., que são, acredito, o que escancara a intencional falta de compromisso com o real —, e fala da escrita como arte histórica, como uma capacidade que vive dentro de cada ser humano, como uma necessidade, mesmo. Montero discorre também sobre vários autores consagrados, fala sobre suas vidas, suas obras, fala de feminismo, de experiência, fala da vida. É um livro apaixonante que recomendo, sobretudo, a escritores, mas também a leitores e a seres humanos, por que não?


Holocausto brasileiro — Daniela Arbex daniela-arbex-holocausto-brasileiro
por Jessica Ohara

O que fizemos? Essa é a pergunta que me assolou durante a maior parte de Holocausto brasileiro, e que ainda me persegue quando penso nesse livro. Quem conhece um pouco sobre a dizimação indígena e a escravidão negra, nunca se deixou iludir pela imagem de Paraíso na Terra construída para o Brasil, mas mesmo não me deixando levar por essa ufania não estava preparada para a realidade dos pacientes mentais do Colônia.

Vivendo em condições dignas de um campo de concentração, pessoas foram trancadas por grande parte de suas vidas, sem a chance de ao menos um exame clínico decente, já que apenas 30% dos internados teria sido realmente diagnosticado. Uma leitura pesada e extremamente marcante, e por isso mesmo necessária.


O Golem e o Gênio — Helene Wecker helene-wecker-o-golem-e-o-genio
por Raquel Costa

Este é um livro de fantasia, sem dúvida, mas com alma de ficção literária. Chava é uma golem, um ser feito de barro e trazido à vida pela magia judaica da cabala. Ahmad é um gênio, um ser mágico feito de fogo que foi preso em uma garrafa há centenas de anos no deserto da Síria. O destino deles se cruza em Nova York, no ano de 1899, um lugar em que imigrantes de todas as partes do mundo se convergem para procurar a chance de ter uma vida melhor. Cheio de suspense, cultura, mágica e história, esse livro ficou comigo por meses depois que o terminei por causa da sua delicadeza e força.

Os personagens principais são decididamente mágicos, mas a real beleza do livro está em quanto eles são incrivelmente humanos em seus relacionamentos, sua cultura, seu senso de comunidade e suas crenças. As vidas de todos os personagens (e temos aqui personagens secundários maravilhosos) se entrelaçam de maneira extraordinária umas com as outras, e com a da cidade de Nova York — que para mim foi em si um personagem. Me tocou como uma história que se passa mais de 100 anos atrás pode ser tão atual ao falar das barreiras de língua, credo e cultura, e também dos laços de amizade, pertencimento e cuidado.


Só garotos — Patti Smith patti-smith-so-garotos
por Paula Cruz

Coleciono bons começos. Meus livros favoritos têm introduções de rasgar o coração. Este livro não é diferente. Pensei em destacar algumas frases, mas é difícil porque tudo é muito bonito, delicado e triste. Virei totalmente fã da Patti Smith: ela escreve prosa com jeito de poesia. Toda frase é linda e tocante. Verdade seja dita, foi uma leitura que me deixou arrasada. Se a introdução já mostra a que veio, o final… Os últimos parágrafos são de cortar o coração ao meio. É algo entre um temor selvagem, carinho e desapego; rock ‘n’ roll e poesia francesa. Haja coração, viu.

Toda a vida da Patti Smith por si só já é um livro e nem precisava de muito pra ficar interessante, né? Só que a escrita dela, Jesus!, torna tudo ainda mais mágico. Os encontros com Jimi Hendrix e Janis Joplin, a estadia no Hotel Chelsea, todo o relacionamento dela com Robert Mapplethorpe… As palavras da Patti Smith transbordam tanto carinho e amor que não tem como não ser atingido pela leitura. Que vida louca, maravilhosa, improvável!


E, se gostou das nossas recomendações, temos muito mais conteúdo na manga para este ano. Junte-se ao nosso clube no Goodreads ou no Facebook para ler e discutir livros incríveis em 2017, ou nos siga no Twitter para receber notícias do blog e do grupo no geral. Adoraríamos saber se você também leu algum desses livros, ou qual foi o melhor livro que você leu no ano passado. Pode vir, adoramos falar disso!

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